REVISTA UPDATE - Ed. 423
Fevereiro de 2006
Negócios
Senhor mercado
Apostar no segmento da terceira idade é uma estratégia que pode trazer bons resultados também no Brasil
Anderson Gurgel, de são Paulo
O Brasil tem envelhecido rapidamente. Hoje, já tem 120 idosos para cada 100 crianças. Segundo dados do IBGE, em 2005 a faixa etária de pessoas com mais de 60 anos – que é conhecida tecnicamente por terceira idade, mas que o mercado está chamando de sênior – já representava 8,8% dos brasileiros, com previsão de que esse número chegue a 17% em 2030. Nesse bolo estão inseridos tanto os “velhinhos clássicos”, aqueles que fazem tricô e jogam xadrez na praça, como outros que trabalham, viajam regularmente, fazem academia e consomem produtos e serviços altamente especializados e sofisticados. Esse segundo grupo surge como parte de um fenômeno do envelhecimento numa sociedade em que há uma oferta enorme de alternativas e tecnologias que oferecem qualidade e prolongamento de vida.
Os dois tipos de terceira idade geram oportunidades de negócio, mas cresce o foco de atenção de grande parte dos empreendedores no segundo grupo, de olho numa mudança de comportamento do público consumidor. Afinal, trata-se de um interessantíssimo mercado, com grande e variada oferta de itens e acelerada expansão de demanda. E, diferentemente dos Estados Unidos, onde esse mercado já é uma realidade consolidada (ver box), no Brasil esse é um nicho de negócios ainda pouco explorado.
Trabalho contínuo
Segundo o consultor Ricardo Silva, da consultoria internacional GfK, esse setor injeta mensalmente na economia brasileira um total de R$ 10,8 bilhões, ou cerca de R$ 130 bilhões ao ano. “Em termos de remuneração mensal, o sênior tem um ganho médio maior que o segmento de 18 a 29 anos, respectivamente R$ 726 contra R$ 581”, afirma. O poder de compra desse indivíduo também é outro fato que não pode ser desconsiderado. Há um crescimento dos sêniores no setor mais alto da pirâmide econômica do País, a classe A. De acordo com Silvar, enquanto 29% da população brasileira se encontra nessa categoria, entre os sêniores a fatia chega a 31%.
Uma outra vertente desse mercado é composta por trabalhadores que, mesmo em idade de aposentadoria, não pensam em dar uma folga ao trabalho. Muitas empresas têm apostado no sênior como um profissional de potencial e experiência de sobra para oferecer. É o caso da americana Pizza Hut, que mantém há dois anos um programa chamado Atividade, que prevê a contratação de funcionários com mais de 60 anos. O sênior é contratado em carteira e tem plano de carreira, numa demonstração de que ainda pode crescer na empresa. A iniciativa já contratou 50 pessoas, o que corresponde a 10% do quadro total da Pizza Hut no Brasil. “Nossa aposta foi na experiência e na vontade de aprender desse grupo e a resposta foi a melhor possível, já que o engajamento com o trabalho é maior do que em outras idades”, diz Reynaldo Zani, diretor de comunicação da empresa.
Conforto em alto nível
Outro exemplo de êxito junto ao mercado sênior está na área hoteleira ocupacional assistida para idosos. Lançado em novembro do ano passado, o empreendimento Residence Care, localizado em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, surgiu da conversão de um antigo hotel. Para isso, o ponto central foi uma reforma de acordo com as normas ABNT de padrões ergonômicos para esse público, com maior atenção à segurança: redução de pisos escorregadios e de escadas desnecessárias e investimento em corrimões e outros itens de segurança. “Nossa aposta foi no sênior que quer ter qualidade de vida, se divertir e continuar a agir no mundo”, comenta a sócia-proprietária Karine Costa. Por esse motivo, o local conta com biblioteca, DVDteca e acesso à Internet, além de atendimento de enfermagem e nutrição personalizado. A mensalidade varia de R$ 2.750,00 a R$ 3.900,00.
O Residencial Care é a mais nova face de um segmento de negócios que ganha fôlego e que teve entre seus pioneiros o Residencial Santa Catarina. Esse projeto, implantado na Zona Sul de São Paulo, foi criado pelo grupo que administra o hospital de mesmo nome na capital paulista. Lançado em 2000, tem 125 apartamentos e ocupação fixa de cerca de 50% com hóspedes de idade média por volta de 80 anos que podem desembolsar uma mensalidade superior a R$ 5 mil.
Remédios e atividades físicas
O setor de serviços também aposta no crescimento do mercado sênior. Uma das primeiras a investir nessa faixa etária foi a Droga Raia, rede de farmácias com cerca de 140 unidades em vários estados, que deu início a um programa de descontos para aposentados em 1987. Cristiana Pipponzi, diretora de marketing, comenta que a opção por fazer um trabalho de fidelização foi uma aposta plenamente bem-sucedida: atualmente o público sênior corresponde a 50% do faturamento da empresa. “Hoje, as pessoas vivem mais e muitas precisam do auxílio de remédios. E o idoso é o cliente que mais consome medicamentos tarjados”, diz.
A percepção de que, ao se cuidar mais, fica reduzido o número de problemas de saúde, faz com que esse grupo tenha um foco na prevenção, com ênfase na qualidade de vida. Academias de ginástica, agências de turismo, shoppings e universidades abrem a cada dia mais espaço para os sêniores. Silva, da GfK, destaca nas pesquisas recentes da consultoria o ganho de espaço para o idoso que prefere fazer atividades físicas, como caminhar e viajar. “Mais da metade dos entrevistados pela pesquisa gastam boa parte de seu tempo e de seus rendimentos em viagens”, exemplifica.
Desafios e oportunidades
Contudo, se o setor de turismo e qualidade de vida já está bem conectado com os sessentões, há um desafio a ser rompido pelas mídias, pelas novas tecnologias e pelo comércio eletrônico. Quem conhece bem o desafio de ganhar espaço junto aos sêniores é Luciene Craveiro. Atenta às novas oportunidades ao grupo da terceira idade, ela criou a revista VIV Senior Lifestyle, voltada diretamente para o público acima dos 60 anos. No mercado editorial há dois anos, a publicação tem circulação de 20 mil exemplares e já ganhou prêmios no mercado e leitores fiéis. No entanto, ela acha que grande parte das empresas ainda têm preconceitos e, por isso, têm medo de associar sua imagem a esse mercado. “Muitos anunciantes acham que esse grupo se resume a velhinhos aposentados que jogam dominó, mas os que já ultrapassaram essa barreira estão gerando muitas oportunidades de negócios”, conclui.
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